Logística para e-commerce: armazenagem e velocidade

A entrega pode terminar na porta do consumidor, mas a corrida contra o relógio começa muito antes de o pedido entrar no veículo.

Quando alguém concluir uma compra online, uma sequência física precisa acontecer: localizar o produto, acessá-lo, coletá-lo, consolidar o pedido, embalar, encaminhar para expedição e disponibilizá-lo para transporte.

Quanto menor a promessa de prazo, menos espaço existe para ineficiências nessa cadeia.

É por isso que a expansão do comércio eletrônico não está pressionando apenas transportadoras e operações de última milha. Está transformando também a demanda por galpões, centros de distribuição, fulfillment centers e infraestrutura de armazenagem.

Um retrato dessa transformação apareceu em setembro de 2026.

Segundo dados da SiiLA publicados pela Forbes Brasil, Mercado Livre e Shopee são atualmente os dois maiores ocupantes de condomínios logísticos do país. O Mercado Livre possui 2,98 milhões de m² locados, enquanto a Shopee soma 1,14 milhão de m². Juntas, as duas empresas chegam a aproximadamente 4,12 milhões de m². O levantamento aponta ainda 1,1 milhão de m² pré-locados pelas duas companhias para o segundo semestre.

O crescimento da infraestrutura acompanha uma transformação maior.

A entrega rápida deixou de depender apenas de encontrar um veículo mais próximo do consumidor.

Ela depende de conseguir fazer o pedido atravessar o armazém com eficiência.

E é nesse ponto que a logística para e-commerce passa a exigir uma análise mais profunda da relação entre capacidade, acesso, picking, layout e sistemas de armazenagem.

Por que Mercado Livre e Shopee pressionam a infraestrutura logística

A demanda das grandes plataformas ajuda a dimensionar quanto espaço físico existe por trás de operações percebidas pelo consumidor como digitais.

Além dos 4,12 milhões de m² ocupados por Mercado Livre e Shopee, a Amazon aparece no levantamento da SiiLA com 685 mil m² e o Magazine Luiza com 517 mil m².

Nos 12 meses encerrados no segundo trimestre de 2026, o segmento de digital fulfillment registrou 1,35 milhão de m² de absorção líquida no Brasil, mais que o dobro dos 593 mil m² registrados pelo segmento classificado como transporte e logística.

Outro levantamento recente, da Cushman & Wakefield, mostra como essa pressão aparece também na ocupação imobiliária. No primeiro semestre de 2026, a Região Metropolitana de São Paulo respondeu por 56% da absorção de galpões logísticos de alto padrão registrada nos principais mercados latino-americanos analisados, com aproximadamente 965,7 mil m² absorvidos.

A proximidade de grandes mercados consumidores é parte importante dessa equação.

Mas localizar o estoque mais perto do cliente resolve apenas uma camada do problema.

Depois que o galpão é escolhido, surge outra pergunta: quanto desempenho logístico é possível extrair de dentro dele?

Porque mais metros quadrados podem aumentar a capacidade física disponível, mas não garantem, sozinhos, maior velocidade operacional.

A entrega rápida começa antes da última milha

A expressão “última milha” ganhou protagonismo nas discussões sobre e-commerce porque representa a etapa final da entrega.

Mas antes dela existe uma sequência operacional que o consumidor raramente vê.

Quando o pedido é aprovado, a operação precisa identificar onde o item está. Depois, alguém ou algum sistema precisa chegar até ele. O produto precisa ser retirado da posição. Dependendo do pedido, diferentes itens precisam ser reunidos. Em seguida vêm conferência, embalagem, etiquetagem, consolidação e expedição.

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Somente então começa o transporte até o consumidor.

Isso significa que uma promessa de entrega mais curta pressiona também o tempo disponível para executar todas essas etapas.

O próprio Mercado Livre ajuda a demonstrar como as expectativas estão evoluindo. Em setembro, a companhia afirmou à Forbes que está trabalhando com um modelo híbrido de velocidade, no qual diferentes produtos podem demandar diferentes prazos. A empresa começou a testar, em determinadas situações, entregas em até 60 minutos, enquanto mantém outras modalidades de fulfillment e distribuição.

O ponto não é concluir que todo e-commerce precisará entregar em uma hora. Nem toda operação precisa dessa velocidade. Nem todo produto justifica essa promessa.

A própria discussão recente do E-Commerce Brasil sobre logística destacou que entregar mais rápido nem sempre representa a melhor decisão quando custo, escala e desenho da malha são considerados.

Mas quanto menor o prazo prometido, maior tende a ser a importância de reduzir esperas e deslocamentos desnecessários dentro da operação.

A velocidade percebida pelo consumidor começa na eficiência física invisível do armazém.

Armazenar mais e acessar mais rápido são desafios diferentes

Imagine dois centros de distribuição com exatamente a mesma capacidade de estoque. Ambos conseguem acomodar 10 mil pallets.

Isso significa que os dois possuem o mesmo desempenho? Não necessariamente.

Um pode permitir acesso direto à maior parte das posições. O outro pode exigir movimentar uma carga para alcançar outra. Um pode posicionar produtos de alto giro próximos das áreas de separação. O outro pode espalhá-los pelo galpão. Um pode possuir corredores compatíveis com os equipamentos utilizados. O outro pode gerar cruzamentos frequentes entre reposição e picking.

Os dois armazenam a mesma quantidade. Mas podem operar em velocidades completamente diferentes.

Essa distinção é especialmente importante no e-commerce.

Densidade responde à pergunta: quanto conseguimos armazenar? Seletividade e acesso ajudam a responder: com que facilidade conseguimos chegar ao produto necessário?

A melhor combinação depende da operação.

Um item armazenado em grande volume e movimentado em pallets completos possui uma dinâmica. Um catálogo com milhares de SKUs e pedidos formados por poucas unidades possui outra.

Por isso, maximizar ocupação não deve ser automaticamente tratado como sinônimo de maximizar eficiência.

O objetivo é encontrar uma configuração capaz de equilibrar estoque, acesso e fluxo.

Picking e slotting na eficiência operacional

Em uma operação de e-commerce, o picking merece atenção especial.

É o processo no qual os itens necessários para cada pedido são coletados de suas posições de armazenagem.

Quando existem muitos pedidos, milhares de SKUs e combinações diferentes de produtos, a forma como esses itens estão distribuídos pelo armazém interfere diretamente no trabalho necessário para separá-los.

É aqui que entra o slotting.

De maneira simplificada, slotting é a lógica utilizada para decidir onde cada SKU deve ficar dentro da operação.

Um item não precisa ocupar uma posição apenas porque cabe nela. Seu posicionamento pode considerar: frequência de picking; giro; tamanho; peso; características de manuseio; quantidade normalmente separada; necessidade de reposição; itens frequentemente pedidos em conjunto; ergonomia; proximidade de áreas estratégicas.

Um conteúdo técnico recente sobre slotting para e-commerce destaca justamente que produtos coletados com frequência devem ser posicionados considerando não apenas facilidade de acesso, mas também reposição, dimensões e relacionamento com outros itens do pedido. A análise alerta ainda que simplesmente reduzir caminhada pode criar outro gargalo se a mudança concentrar operadores demais em um corredor ou exigir reposições excessivas.

Esse raciocínio resume um princípio importante: otimizar uma etapa isoladamente não significa otimizar a operação inteira.

Colocar todos os itens de maior giro no mesmo ponto pode diminuir determinadas distâncias, mas aumentar congestionamentos. Reduzir a área de picking pode aproximar produtos, mas dificultar reposição. Aumentar estoque disponível na posição pode reduzir reposições, mas ocupar espaço que poderia atender outros SKUs.

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Por isso, picking e slotting precisam ser analisados como partes de um sistema.

Porta-paletes, flow rack, drive-in ou mezanino: depende da operação

Quando surge um problema de capacidade ou produtividade, é tentador começar a discussão escolhendo uma estrutura.

Mas a ordem deveria ser inversa. Primeiro vem a operação. Depois, seus requisitos. Só então entra o sistema de armazenagem.

Porta-paletes

É uma alternativa comum quando a operação precisa trabalhar com cargas paletizadas e acesso seletivo a diferentes SKUs. Sua adequação depende das características das cargas, dos equipamentos de movimentação, dos corredores, da altura disponível e da necessidade de acesso.

Flow rack

Pode ser utilizado em operações nas quais caixas ou unidades precisam ser disponibilizadas para picking com alimentação por um lado e retirada pelo outro, aproveitando a gravidade para deslocamento dentro da estrutura. Pode fazer sentido para determinados produtos e perfis de separação. Isso não significa que todo e-commerce precise de flow rack.

Drive-in

Trabalha com uma lógica de maior densidade, reduzindo corredores e permitindo que equipamentos entrem na própria estrutura. Essa configuração pode ser adequada para determinadas cargas com maior volume por SKU e menor necessidade de seletividade individual. Em operações que exigem acesso frequente a muitos SKUs diferentes, a lógica precisa ser avaliada com atenção.

Mezaninos

Permitem criar novos níveis de utilização dentro da altura disponível do galpão. Podem servir para diferentes funções, incluindo áreas operacionais, picking ou apoio, dependendo do projeto e das características da edificação.

Nenhuma dessas estruturas é “a melhor” de forma isolada.

A pergunta correta é: qual configuração responde melhor ao perfil de estoque, acesso, separação e movimentação desta operação?

Essa abordagem é importante também quando se discute automação.

Em apresentação realizada no Summit E-Commerce Brasil de Logística em setembro, a Natura destacou que decisões de automação de CDs precisam considerar fatores como flexibilidade, crescimento, tecnologia, custos e características do negócio antes do investimento.

O mesmo princípio vale para estruturas físicas. Tecnologia e armazenagem devem responder ao problema operacional, e não o contrário.

Como picos do e-commerce mudam a necessidade de capacidade

Um centro de distribuição não opera todos os dias sob exatamente a mesma demanda. No varejo digital, essa variação pode ser significativa.

Black Friday. Natal. Datas comemorativas. Campanhas promocionais. Lançamentos. Mudanças sazonais. Ações de marketplaces.

Todos esses eventos podem alterar simultaneamente estoque, volume de pedidos e necessidade de separação.

A Black Friday oferece um exemplo claro. Conteúdo publicado pelo E-Commerce Brasil em setembro chama atenção para a necessidade de planejar estoque antes da data, considerando não apenas comprar mais mercadoria, mas também o papel de cada produto e a demanda esperada.

Para o armazém, o impacto pode aparecer em diferentes pontos: mais estoque precisa entrar; mais posições podem ser utilizadas; mais produtos precisam ser repostos nas áreas de picking; mais pedidos precisam ser separados; mais embalagens circulam; mais volumes chegam à expedição.

O desafio, portanto, não é apenas possuir capacidade para guardar o pico de estoque. É possuir capacidade operacional para processar o pico de pedidos.

Isso muda a forma de pensar flexibilidade.

Uma estrutura desenhada exatamente para a média pode sofrer em momentos críticos. Uma estrutura permanentemente dimensionada para o maior pico possível pode gerar capacidade ociosa durante boa parte do ano.

Por isso, projeto e planejamento precisam considerar comportamento da demanda, crescimento esperado e possibilidades de adaptação.

Localização importa, mas o imóvel precisa funcionar por dentro

A corrida por galpões mostra outra transformação relevante. E-commerces estão buscando infraestrutura próxima de grandes mercados consumidores.

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O Mercado Livre, por exemplo, fechou um projeto built-to-suit de aproximadamente 464 mil m² em Campinas, em frente ao Aeroporto de Viracopos. Segundo a Cushman & Wakefield, o complexo será utilizado como fulfillment center e poderá apoiar centros menores voltados à última milha.

Essa lógica ajuda a entender por que localização ganhou tanta importância.

Mas um endereço estrategicamente localizado não garante sozinho eficiência logística.

Depois da escolha do imóvel, ainda existem decisões sobre layout; docas; corredores; áreas de recebimento; posições de armazenagem; picking; consolidação; expedição; altura útil; equipamentos de movimentação; sistemas de armazenagem.

É nesse momento que o galpão deixa de ser apenas um imóvel e se transforma em uma operação.

Galpão maior não significa automaticamente logística melhor

Quando uma operação começa a enfrentar falta de espaço, uma reação natural é procurar um imóvel maior.

Às vezes, essa será realmente a decisão correta. Mas área adicional não corrige automaticamente problemas existentes.

Um galpão maior com layout inadequado pode apenas criar deslocamentos maiores. Mais área com baixo aproveitamento vertical pode continuar desperdiçando capacidade. Mais posições sem seletividade adequada podem dificultar acesso. Mais estoque sem revisão de slotting pode aumentar percursos. Mais espaço sem organização do picking pode não reduzir o tempo entre pedido e expedição.

Antes de concluir que o problema é simplesmente metragem, vale investigar: a altura útil está sendo aproveitada adequadamente? Os produtos estão posicionados de acordo com o perfil de movimentação? Picking e reposição interferem um no outro? Existem áreas congestionadas enquanto outras permanecem subutilizadas? O sistema de armazenagem continua compatível com o mix atual? O layout foi desenhado para o volume atual ou para uma operação de anos atrás? Os picos de demanda foram considerados?

Essas perguntas ajudam a distinguir falta real de espaço de falta de aproveitamento, organização ou adequação da infraestrutura.

E podem mudar completamente o diagnóstico.

Velocidade depende da eficiência física invisível ao consumidor

O consumidor vê uma tela. Escolhe um produto. Confirma o pagamento. E acompanha uma previsão de entrega.

Por trás dessa experiência digital existe uma operação profundamente física.

Existem galpões. Estoques. Estruturas. Corredores. Pallets. Caixas. Operadores. Equipamentos. Áreas de picking. Docas. Veículos.

A corrida de Mercado Livre, Shopee e outros grandes varejistas por infraestrutura logística mostra o tamanho dessa base física.

Mas aumentar a quantidade de metros quadrados é apenas uma parte da equação.

A logística para e-commerce exige que capacidade e velocidade sejam pensadas juntas.

É preciso armazenar. Mas também acessar. Separar. Repor. Consolidar. Expedir.

E fazer tudo isso dentro de um fluxo compatível com o volume de pedidos e com a promessa feita ao consumidor.

Por isso, estruturas de armazenagem não deveriam ser escolhidas apenas pela quantidade que conseguem acomodar.

Porta-paletes, flow racks, drive-in, mezaninos e outras soluções respondem a necessidades diferentes.

A escolha começa pelo perfil da operação: quantidade de SKUs, giro, carga, volume, picking, equipamentos, altura, seletividade, picos e crescimento.

Quando essas variáveis são analisadas em conjunto, o projeto deixa de ser simplesmente uma forma de “colocar mais produtos no galpão”.

Passa a ser parte da infraestrutura que permite que um pedido percorra o caminho entre estoque e expedição com eficiência.

Porque a entrega rápida pode terminar na porta do consumidor. Mas ela começa dentro do armazém.

Sua operação de e-commerce, fulfillment ou distribuição está crescendo em pedidos, SKUs ou necessidade de capacidade?

A Altamira desenvolve projetos e sistemas de armazenagem considerando as características reais da operação – cargas, giro, picking, seletividade, espaço disponível, equipamentos e perspectivas de crescimento – para estruturar ambientes alinhados à capacidade e ao fluxo necessários para o negócio.

Referências

Mercado Livre e Shopee Lideram Corrida por Galpões Logísticos com 4,1 Milhões de m² Locados

Os Números por trás da Tese do Mercado Livre sobre a Corrida Logística no Brasil

Mercado Livre beats Shopee and secures Brazil’s largest warehouse lease | BR | Cushman & Wakefield

Natura aponta 5 critérios antes de automatizar um CD – E-Commerce Brasil

São Paulo concentra 56% da demanda por galpões logísticos na América Latina – E-Commerce Brasil

Na Black Friday, vender mais começa por acertar o estoque – E-Commerce Brasil

Warehouse Slotting for Ecommerce | 247 Fulfillment

 

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